Viena
Viena (em alemão: Wien; em austro-bávaro: Wean) é a capital e a maior cidade da Áustria, situada no leste do país, às margens do rio Danúbio. Com cerca de dois milhões de habitantes na cidade propriamente dita — quase um quarto da população total da Áustria — e aproximadamente 2,9 milhões na sua área metropolitana, Viena é a nona maior cidade da União Europeia. Durante séculos residência da dinastia dos Habsburgos e centro administrativo do Sacro Império Romano-Germânico, do Império Austríaco e da Áustria-Hungria, Viena desenvolveu-se como uma das principais capitais políticas, culturais e intelectuais da Europa. Atualmente acolhe numerosas organizações internacionais, incluindo um dos escritórios oficiais das Nações Unidas, e é consistentemente classificada entre as cidades com a mais elevada qualidade de vida do mundo.
Etimologia
O nome português Viena, tal como o alemão Wien, deriva do antigo povoado celta de Vindobona, cujo topónimo é geralmente interpretado como significando "povoado justo" ou "povoado branco", a partir de raízes celtas relacionadas com windo ("branco" ou "claro") e bona ("povoado" ou "fortaleza"). Os romanos estabeleceram no local, no século I d.C., um acampamento militar com o mesmo nome. A relação entre o nome da cidade e o rio Wien, um pequeno curso de água que atravessa a parte ocidental da cidade antes de desaguar no Danúbio, continua a ser objeto de debate académico: alguns linguistas defendem que o povoado recebeu o nome do rio, enquanto outros sustentam a hipótese inversa.
Geografia e clima
Viena situa-se no nordeste da Áustria, próximo das fronteiras com a Eslováquia e a Hungria, na extremidade oriental da Bacia de Viena. A cidade estende-se pelas duas margens do Danúbio, que entra pelo noroeste e sai em direção ao sudeste, e é ladeada a oeste e a norte pelos contrafortes dos Alpes, designadamente a Floresta de Viena (Wienerwald), que penetra nos limites do município. Os distritos orientais prolongam-se pelas planícies do Marchfeld. O Canal do Danúbio (Donaukanal), um antigo braço do rio, atravessa a zona central da cidade. As grandes obras de regularização do Danúbio, realizadas no século XIX e retomadas no século XX, moldaram a hidrografia urbana e deram origem ao Novo Danúbio (Neue Donau) e à Ilha do Danúbio (Donauinsel).
O clima de Viena é de transição, combinando características oceânicas e continentais. Os verões são quentes, com temperaturas médias em torno de 20 °C em julho e ocasionais ondas de calor; os invernos são relativamente frios e frequentemente nublados, com médias de janeiro ligeiramente acima de zero. A precipitação é moderada e distribuída ao longo de todo o ano, com uma média anual de aproximadamente 600 milímetros. As zonas verdes da cidade — que incluem o parque do Prater, a Floresta de Viena e numerosos vinhedos dentro dos limites urbanos — contribuem de forma relevante para o seu distinto perfil ambiental.
História
Antiguidade e Idade Média
A região da atual Viena foi povoada por povos celtas antes de os romanos ali instalarem, por volta da viragem para o século I d.C., a fortaleza legionária de Vindobona, integrada na fronteira danubiana do império. O povoado romano, associado à Legião X Gemina, entrou em declínio durante as migrações da antiguidade tardia. Uma vila medieval formou-se gradualmente e, em 1155, os margraves da dinastia dos Babenbergos fizeram de Viena a sua residência, elevando a sua importância nos territórios austríacos. Em 1221, a cidade recebeu o foral municipal, adquirindo privilégios comerciais de grande relevância. Viena resistiu a um primeiro cerco otomano em 1529, episódio que adquiriu estatuto lendário na história europeia.
A capital dos Habsburgos
Com a ascensão dos Habsburgos no final do século XIII, Viena tornou-se a sede dinástica de uma família que viria a dominar a Europa Central durante mais de seiscentos anos. A partir de meados do século XVI, a cidade passou a ser a principal residência dos imperadores do Sacro Império Romano-Germânico. O segundo cerco otomano, decisivo, ocorreu em 1683 e foi repelido por um exército aliado comandado por João III Sobieski da Polónia; na sequência deste episódio, Viena entrou num período de vigorosa expansão barroca. Sob os imperadores Leopoldo I, Carlos VI e Maria Teresa, palácios, igrejas e residências aristocráticas transformaram a paisagem urbana, com destaque para o Belvedere, mandado construir pelo príncipe Eugénio de Saboia, e para a residência de verão imperial de Schönbrunn.
O Congresso de Viena (1814–1815), convocado após as guerras napoleónicas, redesenhou o mapa político da Europa e deu o nome a toda uma era nas relações internacionais. Em 1867, Viena tornou-se a capital conjunta da monarquia dual da Áustria-Hungria, governando cerca de cinquenta milhões de súbditos. A segunda metade do século XIX testemunhou um crescimento demográfico e urbano explosivo: as fortificações medievais foram demolidas e substituídas pela Ringstrasse, uma grandiosa avenida ladeada por edifícios monumentais de estilo historicista, entre os quais o Parlamento, os Paços do Concelho, a Universidade e a Ópera da Corte. Em 1910, com mais de dois milhões de habitantes, Viena figurava entre as maiores cidades do mundo.
O século XX
O colapso da Áustria-Hungria no final da Primeira Guerra Mundial reduziu Viena de metrópole imperial a capital da pequena República da Áustria. No período entreguerras, a gestão municipal socialista, conhecida como "Viena Vermelha" (1919–1934), promoveu um ambicioso programa de habitação pública e de reforma social, cujo exemplo mais célebre é o Karl-Marx-Hof. Em 1938, o Anschluss anexou a Áustria à Alemanha nazi; a comunidade judaica de Viena, uma das maiores da Europa e central na vida intelectual da cidade, foi perseguida e em grande parte exterminada durante o Holocausto. A cidade sofreu danos consideráveis na Segunda Guerra Mundial e foi posteriormente dividida em zonas de ocupação pelas potências aliadas vitoriosas, situação que terminou com o Tratado de Estado Austríaco de 1955, que restituiu a plena soberania ao país.
Durante a Guerra Fria, Viena cultivou o seu papel como ponto de encontro neutro entre Oriente e Ocidente, acolhendo sedes de organizações internacionais e servindo de palco para grandes cúpulas diplomáticas. Desde 1979 que alberga um dos quatro escritórios oficiais das Nações Unidas.
Administração e divisão distrital
Viena é simultaneamente uma cidade e um dos nove estados federais austríacos (Bundesländer), estatuto dual que confere ao município as competências de um governo provincial. A cidade encontra-se dividida em 23 distritos (Bezirke), cada um dotado de certa identidade administrativa, desde a densamente construída Innere Stadt (1.º distrito), núcleo histórico, até distritos periféricos como Donaustadt (22.º distrito). O chefe do executivo municipal é o presidente da câmara, apoiado pelo senado e pela assembleia municipais. Os distritos elegem os seus próprios órgãos representativos, que tratam de assuntos locais como a regulação do trânsito e a manutenção dos espaços verdes.
Economia
Viena é o centro económico da Áustria, gerando uma parcela substancial do produto interno bruto nacional e funcionando como polo de serviços, finanças e comércio com a Europa Central e Oriental. Os principais bancos, companhias de seguros e empresas do país mantêm as suas sedes na cidade, e Viena tem servido historicamente como porta de entrada do investimento ocidental no antigo bloco de Leste. A economia municipal é dominada pelo setor terciário, com emprego significativo na administração pública, nas organizações internacionais, no turismo e nas indústrias intensivas em conhecimento. O turismo reveste-se de particular importância: Viena atrai milhões de visitantes anualmente, atraídos pelos seus palácios imperiais, museus, cena musical e cultura dos cafés. A cidade acolhe ainda grandes feiras comerciais e congressos, figurando entre os principais destinos internacionais de conferências.
Cultura
Música
A associação de Viena à música é central para a sua identidade internacional. A cidade foi lar de Joseph Haydn, Wolfgang Amadeus Mozart, Ludwig van Beethoven, Franz Schubert, Johannes Brahms e da dinastia Strauss, e serviu de berço ao classicismo vienense e, mais tarde, à revolução atonal liderada por Arnold Schoenberg e pela sua escola. A Filarmónica de Viena, fundada em 1842, e a Ópera Estatal de Viena figuram entre as instituições musicais mais prestigiosas do mundo. A Sala Dourada do Musikverein é mundialmente célebre pelo Concerto de Ano Novo, transmitido para audiências de todo o globo. A tradição da opereta vienense, o Wienerlied (canção popular vienense) e a valsa vienense completam o património musical da cidade, grande parte do qual se encontra inscrito nas listas do património cultural imaterial da UNESCO.
Arquitetura e monumentos
O centro histórico de Viena, a Innere Stadt, foi classificado como Património Mundial da UNESCO, em reconhecimento pela sua arquitetura estratificada, que abrange os estilos gótico, barroco, historicista e Arte Nova. Entre os seus monumentos mais proeminentes contam-se a Catedral de Santo Estêvão (Stephansdom), obra-prima da arquitetura gótica cujo telhado de telhas coloridas domina a skyline da cidade; o Hofburg, o vasto antigo complexo palaciano imperial que hoje alberga os gabinetes do presidente da república e vários museus; a barroca Igreja de São Carlos Borromeu (Karlskirche); e o Palácio de Schönbrunn, residência de verão dos Habsburgos com os seus extensos jardins, classificado em自身的 direito como Património Mundial. Os monumentos da Ringstrasse, o Edifício da Secessão, desenhado por Joseph Maria Olbrich como manifesto do movimento da Secessão de Viena, as habitações sociais do período entreguerras e a arquitetura pós-moderna e contemporânea ao longo do Danúbio ilustram a contínua evolução arquitetónica da cidade. O parque de diversões do Prater, com a sua emblemática Riesenrad (roda-gigante) que data de 1897, permanece como um dos símbolos mais queridos da cidade.
Museus, ciência e pensamento
Viena possui uma das maiores concentrações de museus da Europa. O MuseumsQuartier, um dos maiores distritos culturais do continente, liga-se ao Museu de História da Arte (Kunsthistorisches Museum) e ao Museu de História Natural, instituições gémeas fundadas para albergar as coleções dos Habsburgos. O Belvedere guarda a principal coleção mundial de pinturas de Gustav Klimt, incluindo O Beijo, enquanto a Albertina é renomada pelas suas coleções de artes gráficas. A tradição académica da cidade encarna-se na Universidade de Viena, fundada em 1365 e a mais antiga do espaço de língua alemã, a que se somam instituições como a Universidade Técnica de Viena (TU Wien), a Universidade de Economia e Negócios de Viena e a Universidade de Medicina. Viena foi igualmente um centro fundador do pensamento moderno: a psicanálise nasceu das salas de consulta de Sigmund Freud, o Círculo de Viena de empirismo lógico transformou a filosofia do século XX, e a cidade nutriu trabalho pioneiro em economia, direito e musicologia.
Gastronomia e cultura dos cafés
A cozinha vienense reflete o passado imperial da cidade, fundindo tradições culinárias austríacas, boémias, húngaras, italianas e judaicas. Entre os pratos emblemáticos contam-se o Wiener Schnitzel, um escalope de vitela panado e frito; o Tafelspitz, carne de vaca cozida acompanhada de guarnições clássicas; e um rico repertório de pastelaria, no qual se destaca a Sachertorte, bolo de chocolate com compota de alperce inventado no Hotel Sacher. O café vienense, reconhecido pela UNESCO como património cultural imaterial, constitui uma instituição social distinta: mesas de mármore, jornais sobre suportes de madeira e uma cultura de conversa demorada que, há mais de três séculos, acolhe escritores, artistas e intelectuais.
Papel internacional
Viena ocupa uma posição de destaque na diplomacia internacional. Desde 1979 que o Centro Internacional de Viena alberga o Escritório das Nações Unidas em Viena, onde se sediam a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO) e o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) têm igualmente as suas sedes na cidade. Viena foi palco de inúmeras negociações e acordos marcantes, incluindo as Conversações sobre a Limitação de Armas Estratégicas, as negociações nucleares com o Irão que culminaram no Plano de Ação Conjunto de 2015, e os tratados que criaram o Arranjo de Wassenaar e o quadro internacional de controlo de estupefacientes.
Importância e legado
O legado de Viena enquanto capital imperial manifesta-se tanto no seu tecido urbano monumental como nas instituições culturais e científicas que continua a sustentar. A combinação de património histórico, infraestruturas sociais, segurança, oferta cultural e posição de neutralidade diplomática tem colocado a cidade, de forma recorrente, no topo dos índices internacionais de qualidade de vida. Ao mesmo tempo, o seu estatuto como sede de organizações multilaterais mantém-na no centro dos grandes debates contemporâneos, desde o desarmamento à energia atómica, conferindo-lhe uma relevância global que ultrapassa amplamente a dimensão do país de que é capital. Deste modo, Viena conserva uma dupla condição: a de museu vivo do seu passado imperial e musical, e a de cidade ativa na configuração do presente europeu e internacional.
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